quarta-feira, 2 de outubro de 2013


O LIVRO


O maior inimigo do livro é a falta de leitores

 

Dos instrumentos do homem, o livro é, sem dúvida, o mais assombroso. Os demais são extensões do corpo.
O microscópio, o telescópio são extensões da sua vista. 
O telefone é a extensão da sua voz.
Depois vem o arado e a espada, extensões do seu braço.
Mas o livro é outra coisa:
o livro é a extensão da memória e da imaginação.

Jorge Luiz Borges

                   
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

   Almas perfumadas



Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.

De sol quando acorda.

De flor quando ri.

 

Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso

numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.

Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça,

lambuzando o queixo de sorvete,

melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.

 

O tempo é outro.

E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, 

mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.

De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.

 

Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.

Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e 

trocando o salto pelo chinelo, sonhando a maior tolice do mundo 

com o gozo de quem não liga pra isso.

 

Ao lado delas, pode ser abril, 

mas parece manhã de Natal 

do tempo em que a gente acordava 

e encontrava o presente do Papai Noel.

 

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu 

e daquelas que conseguimos acender na Terra.

Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, 

a gente tem certeza.

 

Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria, 

recebendo um buquê de carinhos, abraçando um filhote de urso panda, 

tocando com os olhos os olhos da paz.

Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave 

que sua presença sopra no nosso coração.

 

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa,

do brinquedo que a gente não largava,

do acalanto que o silêncio canta,

de passeio no jardim.

 

Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade 

é um perfume que vem de dentro e que a atração 

que realmente nos move não passa só pelo corpo.

Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar.

 

Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos 

Deus está conosco, juntinho ao nosso lado.

E a gente ri grande, que nem menino arteiro.

 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Comentário sobre Carregados de Sonhos por Ruy Valle - Brasília-DF


Li o “Carregados de Sonhos” de Conceição Alves. É um quase romance. Existe um personagem central, mas em torno dele vão surgindo tantos que chegam a nos confundir. Uma das personagens parente do personagem principal chega a morrer em acidente de trabalho.

            Bom é o tratamento dado à migração de nordestinos para Brasília. O “causo” das joias falsas foi mal esclarecido, ninguém foi preso?

            A Conceição Alves merece ser lida, ela é detalhista. Gostei.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

COMENTÁRIO POR MARIA JOSÉ GOMES




CARREGADOS SONHOS


         Carregados de Sonhos, assim Conceição o batizou. Foi muito feliz na escolha. Ela poderia ter escrito sobre Brasília já edificada, mas não, quis retroceder os ponteiros do tempo e escrever sobre o início, a construção no meio do nada, ganhando forma a cada dia, seguindo uma ordem lógica que começava com a origem do problema, terminando com a solução definitiva.
         O livro relata a trajetória dos operários que construíram Brasília, os chamados candangos, através da saga de uma família nordestina que migrou para o Centro-oeste no final da década de 1950, atendendo à convocação do então presidente Juscelino Kubitschek.
         É um livro com pernas para andar. A autora, através da sua intimidade com as palavras, conseguiu levar-me para um tempo no qual eu não vivi, e mesmo assim fez-me viver cada um daqueles momentos, imaginando cada um dos fatos descritos.
         Você, Conceição, tem o dom da crônica, sabe narrar e descrever fatos, lugares, situações, pessoas. Colorir os fatos com as palavras adequadas. Uma escritora contemporânea. Fala com a emoção que brota em seu coração. Linguagem clara, terminologia precisa e preciosa, concordância com o sonho e a realidade.
         Pura literatura que se reporta ao passado em Carregados de Sonhos, nostalgia o belo em resgatar e liberar memórias. O texto conceiciano é dotado de extrema sensibilidade e encerra uma verdade, um fato vivido.
         Leva o leitor a sentir-se presente, porque a linguagem utilizada é simples e clara.
         Mário Quintana diz em um dos seus belos escritos:...”Ao ler alguém que consegue expressar-se com toda limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.”
         É isto mesmo que acontece em Carregados de Sonhos. Nesta belíssima obra, a autora chegou à sofisticação pela simplicidade, técnica usada pelos grandes escritores.
         Eis aí uma bela obra literária.
          Agora cabe ao leitor fazê-la existir.

 

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO CARREGADOS DE SONHOS POR MARCO JUNO FLORES


Conclui hoje, com alegria, a leitura de "Carregados de Sonhos" da colega Conceição Alves.

Olha, gostei.

No seu ritmo de prosa a nossa querida acadêmica pesqueirense contou a história. E mais do que isso: assumiu um estilo próprio, pleno de técnicas refinadas, as quais foram conduzidas com segurança, do principio ao fim do livro. Em alguns momentos eu relia o texto para conferir a desenvoltura da autora:

 

“Ao raiar do dia, estava com sono, a história toda na memória, alguns tópicos no papel para se garantir. Dormiu ali mesmo recostada no sofá. Despertou com a cabeça cheia de ideias."

 

Aí, a falsa terceira pessoa foi a opção da autora. Ficou legal.

 

Um narrador oculto (SMJ) apossou-se da narrativa – isto quando os personagens lhe davam alguma oportunidade - do princípio ao fim. Não me lembro de ter visto, em nenhum momento, uma narrativa onisciente. Não me lembro também de qualquer opinião própria manifestada pelo narrador.

 

A história pode até ser a mesma de milhares de pessoas que viveram aqueles tempos, mas alguém teria de contá-la, e isso Conceição o fez bem. A ideia de entregar a narrativa, na sua essência, aos personagens, renunciando ao discurso indireto, me pareceu outra opção interessante da autora. Dá maior credibilidade.

E por ai se foi a colega na missão de “ghost writer” de luxo. Fugiu da narrativa em terceira pessoa, o que faria o escritor comum.

A SINFONIA DA ALVORADA

História da Sinfonia.

A Sinfonia da Alvorada, que mais tarde ficou conhecida como Sinfonia de Brasília, foi encomendada a Vinicius de Moraes e Tom Jobim pelo Presidente Juscelino Kubitschek desde fevereiro de 1958, mas o trabalho da dupla foi adiado por causa de protestos contra a construção da cidade, originados principalmente nas áreas de oposição ao governo.

Mais tarde, Juscelino reiterou o convite através do arquiteto Oscar Niemeyer, que transmitiu a Vinicius a vontade do Presidente de ter a Sinfonia pronta antes de 21 de abril de 1960, dia marcado para a inauguração da capital.

A convite do Presidente, Tom e Vinicius passaram uma temporada em Brasília, para conhecer o local onde a cidade estava sendo construída.

Mas Brasília foi inaugurada sem a Sinfonia. Planejaram, então, uma nova data para apresentação; um espetáculo de luz e som para o dia 7 de setembro de 1960. Também não aconteceu por causa dos altos custos apresentados pela empresa francesa Clemançon, que proveria o equipamento e a tecnologia para o evento.

Finalmente, em 1966, a Sinfonia da Alvorada foi apresentada em primeira audição, na TV Excelsior de S. Paulo. E só em 1986, decorridos 26 anos da inauguração e após a ditadura militar, ocorreu uma segunda apresentação na Praça dos Três Poderes em Brasília.   Juscelino já havia morrido e Vinícius de Moraes. O texto de Vinícius foi falado pela filha Suzana de Moraes e por Tom Jobim.

A Sinfonia é dividida em cinco partes:

1 - O Planalto e o Deserto

2-  O Homem

3 - A Chegada dos Candangos

4 - O Trabalho e a Construção

5– Coral

O vídeo apresenta a terceira e a quarta parte da Sinfonia: A Chegada dos Candangos e O Trabalho e a Construção, textos que tem mais a ver com o livro Carregados de Sonhos de Conceição Alves.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

PROGRAMADO PARA O DIA 04 DE AGOSTO DE 2012, A PARTIR DAS 16:00, NA ACADEMIA PESQUEIRENSE DE LETRAS E ARTES O  LANÇAMENTO DO LIVRO "CARREGADOS DE SONHOS", EM PESQUEIRA - PE.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

APRESENTAÇÃO DO LIVRO CARREGADOS DE SONHOS DE CONCEIÇÃO ALVES, POR DJANIRA SILVA.





  “Neste romance, leitor e personagens se familiarizam através de diversas vozes dentro da maior sofisticação da técnica: a simplicidade”. Com estas palavras Conceição Alves nos entrega o livro Carregados de Sonhos.
Com uma linguagem fácil, coloquial, a autora inicia a narrativa. Empreende uma viagem que se assemelha à saga de um escritor que se entrega de corpo e alma aos fazeres da escrita. É assim, assim mesmo - o escritor é um retirante que sai de si mesmo numa caminhada cega criando seus próprios caminhos.
Sabemos que cada autor tem seu público. Isto não quer dizer multidão. O público de cada autor é aquele que pulsa com ele. Escrever, na verdade, é uma árdua missão, um mistério que só que nem o tempo desvendará. Quem nos lerá? Que valor tem o que escrevemos?     
Dentro desses parâmetros Conceição parte com garra e audácia, e desenvolve seu trabalho entre o sonho e a realidade, o sonho sim, pois a invenção é o ponto culminante da arte, elemento imprescindível  à criação literária. Realmente, Conceição Alves, deu um salto do romance   ficcional para a narrativa entrelaçada, oscilando entre o ser e o dever ser, onde a preocupação com técnicas e formas literárias empresta um novo rumo à sua obra.

sexta-feira, 8 de junho de 2012


MEU NOVO LIVRO:  CARREGADOS DE SONHOS
APRESENTAÇÃO

              Muitas informações, as mais precisas, para construir este romance foram pesquisadas em vários escritos sobre a história de Brasília que constam do acervo do Arquivo Público do Distrito Federal. As demais, colhidas de personagens reais que participaram do Grande Empreendimento de Juscelino Kubitschek, são contadas por dentro; a parte humana, as lutas daqueles que se arriscaram sem medir esforços, arregaçando as mangas e partindo em busca de um sonho comum; o sonho dos grandes (governantes, políticos e pensadores), e dos pequenos; homens simples e corajosos.
            Entre os nordestinos sedentos de trabalho e de crescimento fizeram parte uma família, cuja saga está nas próximas páginas, que sofreu as consequências das secas da região e, como tantas outras, migraram para o centro oeste do país, numa trajetória de sofrimento e perseverança, com a perspectiva de uma vida melhor; para eles apenas a sobrevivência. Uma narrativa emocionante que o caro leitor acompanhará ciceroneado pelo narrador.
            O maior objetivo do romancista é que suas personagens, criaturas surgidas de sua mente, reais ou ficcionais, se tornem íntimas dos leitores e sejam pessoas que falam, se movimentam, sentem e vivem. Neste romance, leitor e personagens se familiarizam através de diversas vozes dentro da maior sofisticação da técnica; a simplicidade.




A autora


quinta-feira, 7 de junho de 2012

ORELHA DE CARREGADOS DE SONHOS


ORELHA  - 1


            O novo livro de Conceição Alves, Carregados de Sonhos, fala da trajetória de uma família nordestina e da construção da nova capital do país, Brasília, no fim dos anos cinquenta.
Como milhares de nordestinos, os personagens ouviram surpresos a “boa nova” que acenava com a realização dos desejos de uma vida digna. Livrar-se das dificuldades causadas pelas secas recorrentes na Região e o fascínio pelas noticias que de lá chegavam, misturavam-se à esperança e ao medo da perda de suas raízes.
Mas partiram, cheios de saudades e sonhos, o pai, a mãe e o filho, em direção ao Planalto Central deixando a terra, parentes, amigos, as alegrias em tempos de colheita e, abrindo caminho para grande parte da família.
A autora optou pela narração em primeira pessoa entregando ao filho mais novo, agora com cerca sessenta anos, o relato dos acontecimentos e sem se preocupar com a interlocutora faz quase um desabafo. Amanhecia, quando a sobrinha depois de uma escuta paciente adormece no sofá, com a saga da família na cabeça, pronta para ser registrada.
Logo sentiu que era preciso completá-la através de documentos oficiais, estudos, fotografias, enriquecendo-a com outro olhar. Pode-se então, ler duas histórias: a saga dos trabalhadores e de suas famílias e a dos responsáveis pela construção da Capital atendendo à convocação do então Presidente Juscelino Kubistchek.
            Os fatos narrados se mesclam, se fundem no trabalho nos canteiros de obras onde mergulharam junto a outros candangos, vindo de várias partes do país.
O livro vem enriquecer a memória desse histórico momento.

                            Mila Cerqueira

domingo, 3 de junho de 2012


                            A ARTE DE NARRAR

                                              

Conceição Alves – Membro da Academia Pesqueirense de Letras e Artes



     Vamos pensar porque o ser humano, desde os seus primórdios, sempre se apresentou como aquele que tem, por fundamento ontológico, a necessidade de narrar, de transmitir sua história e experiências ao longo da vida.

     Anteriormente à escrita, no interior das grutas, na superfície das rochas, o homem primitivo  nos deixou o testemunho de sua passagem pela Terra, pintando seu cotidiano, na forma mais rudimentar, utilizando-se do recurso às imagens para se comunicar.

     Com a invenção da imprensa alcança-se definitivamente a possibilidade de se divulgar, para um número maior de leitores, as informações e fatos de nossa história como também esse modo singular de fazer arte através da escrita, que é a Literatura.

       Contar uma história da vida real ou do mundo imaginário da ficção, sob as mais diversas formas de narrar; crônica, conto, novela, romance. Um fato histórico, a saga de uma família, uma biografia, a cena de um crime, uma história de amor e muitas outras.

     O ser humano sempre foi um contador de estórias, motivado por uma intensa e profunda necessidade de comunicação, através desses diversos caminhos e estilos encontrados pelos escritores para transmitir pensamentos, emoções, sonhos e fantasias.

Os Memorialistas, que se dedicam a retratar a memória de um povo.

Os Historiadores, que buscam encontrar a origem dos fatos históricos. 

Os Biógrafos, que relatam a vida de personagens famosos da nossa história.

Os Poetas, que encontram, na poesia, esse meio encantado de narrativa para nos falar de suas emoções.

Os Contistas, que conseguem ,em poucas palavras, nos apresentar relatos densos de experiências vividas.

Os Romancistas que nos trazem, através da narrativa da estória  de seus personagens, aspectos muitas vezes relacionados às  suas próprias vidas.

Os Haicaistas, que conseguem, tão sucintamente, nos falar de emoções universais através de uma ou duas palavras.

Os Cordelistas com uma narrativa quase que épica do sertão nordestino,

Os que buscam, na literatura de  Humor, uma forma mais descontraída de narrar as verdades do cotidiano.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

ORIGEM DAS ACADEMIAS

Na Grécia Antiga, Platão reunia os seus discípulos para ministrar palestras nos jardins do herói Akademus, onde debatia, difundia e ampliava a memória cultural de sua época. Daí o nome "Academia" que em sentido amplo abrange a cultura de uma cidade, de um estado ou país. A academia não é apenas literária, é o lugar onde se manifestam as mais diversas formas artísticas; escrever, pintar, tocar, cantar e tantas outras,dando-lhes um sentido de perpetuidade e indentidade cultural. A Academia tem por objetivo cuidar das tradiçoes das artes de uma maneira geral com  a missão de registrá-las e não deixá-las morrer através da chamada Imortalaidade Acadêmica que nada mais é que uma forma de alegoria da memória cultural do homem por sua dimensão criadora.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

ACADEMIA PESQUEIRENSE DE LETRAS E ARTES - APLA - 10 ANOS


O homem que semeia conhecimentos, não morre. Ele deixa frutos para serem colhidos por várias gerações. É este o legado dos que fazem a APLA. Eis aqui o juramento do acadêmico para reflexão, principalmente dos nossos jovens, nossa esperança de futuro. (Art. 30 do Regimento Interno da Academia).
“Prometo cumprir com responsabilidade e ética acadêmica o objetivo da Academia Pesqueirense de Letras e Artes, que está voltado para a disseminação e o fomento da língua, das artes, da cultura artística junto às populações da região, mormente os jovens estudantes dos diversos segmentos da cultura em geral, incentivando-os à produção literária em seus múltiplos aspectos.”

domingo, 22 de maio de 2011

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA PESQUEIRENSE DE LETRAS E ARTES


SENHORES MEMBROS DA MESA,
MEUS CAROS CONFRADES E CONFREIRAS DA ACADEMIA PESQUEIRENSE DE LETRAS E ARTES,
MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES.


Sinto-me extremamente honrada em ocupar a cadeira de número 22 nesta Casa de Letras e Artes e devo confessar o temor que há em mim neste momento, por tamanha responsabilidade ora assumida. A principal razão desse temor é poder corresponder à pessoa que me antecedeu, Irmã Gazzinelli, minha mestra no Colégio Santa Doroteia e figura muito significativa para esta cidade onde viveu por quase meio século. Outra, pelo fato de passar a fazer parte de uma Instituição composta de membros fazedores de cultura, homens e mulheres íntegros desta sociedade da lendária terra de Ararobá, na qual me criei e aprendi a amar desde cedo.
A Patrona
Fazendo referência à Patrona desta cadeira, menciono aqui alguns dados biográficos dessa mulher que se radicou em Pesqueira, e que desempenhou importante papel no desenvolvimento da educação em todo o estado de Pernambuco. A Sra. Laudelina Câmara Benjamim, irmã de Alfredo de Arruda Câmara, religioso que, ordenado padre em 1928, foi designado pároco da Catedral de Sant’Águeda, motivo este que o levou a trazer a família do sertão, para aqui fixar residência.
A jovem Laudelina viveu na casa paroquial com a mãe, tendo iniciado os estudos na escola de uma professora conhecida por dona Mariquinha.
Nessa época as irmãs Doroteias, a convite de D. José Lopes, primeiro Bispo de Pesqueira, haviam aberto um educandário para meninas, com a ajuda dos proprietários das fábricas de doces e sociedade local, oferecendo o curso normal rural.
Laudelina ingressou talvez na primeira turma. Foi também aluna do jovem agrônomo Moacyr Britto de Freitas, que lecionava biologia e zootecnia, orientando as normalistas para a implantação de pequenas hortas e criação de animais domésticos. O Dr. Moacyr foi um dos proprietários das fábricas Peixe, pioneiro nos estudos científicos da ecologia em Pernambuco e Doutor Honoris Causa da UFRPE. É Patrono da cadeira de número 14 da Academia Pesqueirense de Letras e Artes.
 Dos tempos da adolescência e juventude em Pesqueira, Laudelina conservou ligações afetivas com as Irmãs Doroteias e também com jovens senhoras do seu tempo, entre elas: dona Santina Ventura, dona Ana Rita do Rego Barros, dona Cota e a poetisa Evangelina Maia Cavalcanti.
A família se transferiu para o Recife após a revolução de 1930, quando o Padre Arruda Câmara seria eleito deputado constituinte em 1934. Laudelina casou-se em 1940 com o coronel João Emerson Benjamim vindo a ter dois filhos: Emerson e Roberto.
Nomeada Inspetora Federal de Ensino, atuou em diversos estabelecimentos de educação. Teve grande influência na implantação da Inspetoria Seccional do Ensino Secundário, no Recife, que viria a dirigir por muitos anos até a aposentadoria.
         Preocupou-se em expandir o ensino médio para o interior do Estado, viabilizando a abertura de ginásios e colégios. Através de seleção e treinamento do magistério em cursos de suficiência, supriu a carência de professores formados nas faculdades de filosofia da capital, insuficientes para atender à demanda dos novos estabelecimentos de ensino. Incrementou o programa de bolsas de estudos para alunos de todo o Estado.
         Mesmo distante, a família não se desligou inteiramente de Pesqueira. O Monsenhor Arruda Câmara sempre contou com expressivas votações no município. A mãe, dona Emília Magalhães Câmara, fez um pedido aos familiares para ser sepultada no cemitério de Pesqueira. Foi atendida.
         Laudelina nunca esqueceu esta cidade e dos anos aqui vividos, rememorou episódios da sua juventude passando aos filhos e a outros familiares o amor pela terra pesqueirense.
         Faleceu no Recife em 14 de janeiro de 1996.
Minha antecessora,
Thalita Bamberg Gazzinelli, mineira da cidade de Teófilo Otoni, de origem alemã e italiana, identificou-se com Pesqueira, dedicando a maior parte da sua existência à educação no Colégio Santa Dorotéia, formando a juventude para vida.
Era possuidora de muitos dons e talentos naturais dados por Deus. Tocava órgão e piano. A música fazia parte da sua vida. Fez lindas composições para as festas de Sant’Águeda, nossa padroeira, de quem era devota. É autora da música do Hino da Academia, cuja letra é da poetiza Paula Frassineti Alves.
Em 1964 idealizou o conjunto Uirapuru, formado por um grupo de alunas do colégio que levou a boa música, durante muitos anos, por toda a região sob a batuta da grande maestrina.
Tive o privilégio de ser sua aluna nas disciplinas música e francês, obrigatórias no currículo do majestoso educandário à época.
Irmã Gazzinelli ensinava por vocação e ideal. Rígida e às vezes brava na sala de aula, com a finalidade única de levar conhecimentos às suas alunas. Lembro como se fosse hoje, quando ela sorteava um número da caderneta para a arguição. Aula de francês: “le numero dix huit” , eu tremia, era este o meu número. Guardei na memória tais quais as lições que ela me ensinou. Ainda sei rezar a Ave Maria em francês. E as aulas de música? Decorei as sete notas para nunca mais esquecer. “Com estas notas mágicas são construídas todas as músicas”. Dizia ela.
Destacou-se ainda como educadora, por ter desempenhado a missão de dirigir o internato de moças do colégio, durante décadas, onde muitas famílias de várias cidades da região e de outros estados confiavam suas filhas às irmãs Doroteias, para serem educadas dentro da mais completa disciplina e princípios cristãos. O internato funcionou até meados dos anos oitenta.
Há poucos dias consultei o google e tive oportunidade de ver fotos dessas jovens da época do colégio, muitas hoje avós, espalhadas por esse Brasil afora. Elas recordam com carinho os tempos do Santa Doroteia em companhia da saudosa Irmã Gazzinelli.
Ganhou respeito e admiração de várias lideranças da sociedade civil, política e eclesiástica. Por ocasião dos noventa anos do Santa Doroteia, em 19 de abril de 2009, foi homenageada recebendo a medalha Anísio Galvão da Câmara Municipal de Pesqueira.  Aos 98 anos e completamente lúcida, na ocasião, confidenciou a uma das suas antigas alunas: “A homenagem que a mim prestaram hoje foi tão grande que vai durar até a minha morte”.
Cidadã pesqueirense, recebeu Título Honorífico pelos bons serviços prestados à terra, e fez jus à medalha e à cadeira que ocupou na Academia, desde sua fundação no ano de 2001.
Irmã Gazzinelli chegou quase à plenitude dos seus noventa e nove anos de existência, dos quais quarenta e oito vividos em Pesqueira. Paciência, humildade, perseverança, amor ao próximo, suas maiores virtudes, e Fé, legado que ela nos deixou quando partiu no dia 02 de outubro de 2009.
Um pouco de mim.
Estou muito feliz em pertencer a esta Casa de Cultura onde farei o possível para dar o melhor de mim, oferecendo minha colaboração espontânea à entidade que me abriga, nesta terra a qual me adotou desde os doze anos de idade, quando minha família se transferiu da vizinha Belo Jardim, onde nasci, vindo fixar residência na então cidade industrial de Pesqueira. Aqui estudei, me formei, arranjei o primeiro emprego, fiz muitos amigos, casei com um pesqueirense nato com quem tive três filhos todos nascidos neste solo, ao sopé da imponente serra do Ororubá.
Na carta encaminhada ao presidente Aluiz Tenório de Brito, apresentando minha candidatura à cadeira de número 22, anexei ao “currículum vitae”, alguns trabalhos que tenho feito na área de literatura; livros publicados como autora e co-autora, participação em eventos, filiação em entidades literárias, além de outros na área de pintura. Juntei também meu diploma de graduação em Letras pela Faculdade de Arcoverde, do qual me orgulho, pois apesar de uma longa carreira bancária, a maior parte dedicada ao Banco do Nordeste em Pesqueira, sempre amei muito a literatura e foi depois de encerrar minhas atividades no banco, com filhos criados, que passei a me dedicar às letras e às artes, caminho pelo qual galguei este degrau.
 No ano de 2006, lancei meu primeiro livro, Crônicas de Uma Vida, uma história baseada em fatos reais, movida pela emoção, onde narro a trajetória de vida de minha mãe, com o qual a presenteei no seu aniversário de oitenta anos.
Convidei para prefaciar esse livro, o colega do Banco do Nordeste, jornalista e escritor William Pôrto, que em seu texto disse o seguinte: “Apesar de conhecer a autora há vinte anos, desconhecia os seus pendores literários. Como é que eu iria adivinhar que aquela colega com quem sempre conversava, tão ciosa dos seus deveres, franca, direta, era alguém com talento para as letras?”
 Com a repercussão de Crônicas de Uma Vida enveredei pelos caminhos do escrever passando a frequentar, a partir de então, a oficina de criação literária ministrada pelo renomado escritor pernambucano Raimundo Carrero. Em 2007 apresentei outro trabalho, a novela “Senhora de Si”, um misto de ficção e realidade que lancei também em Pesqueira por ocasião da festa do reencontro dos ex-alunos. Participei de várias antologias com outros escritores pernambucanos e tenho dois livros para serem publicados em breve, na área romance. Publiquei contos e crônicas no jornal local, “Pesqueira Notícias”.
 E se aqui estou, foi graças à votação de 20 de março, com que me consagraram os confrades acadêmicos e que corresponde a votos de boas vindas que muito me engrandecem. Minha gratidão àqueles que sufragaram o meu nome e aos que prestigiaram este pleito.
Quero agradecer a gentil, generosa e cordial saudação do confrade Givanildo Galindo aos novos acadêmicos.
Aproveitando esta oportunidade, agradeço o apoio do confrade Gilvan de Almeida Maciel, titular da cadeira no. 05, este expoente da cultura pesqueirense que muito me incentivou para esta candidatura a quem admiro pela sua retidão de caráter e amor por tudo o que faz.
Devo concluir, agradecendo à sociedade aqui presente, familiares, amigos, aos colegas do Grupo Boa Prosa e da oficina de Carrero que se deslocaram do Recife, à UBE/PE, representada pelo escritor Antônio Neto, enfim, aos confrades e confreiras com os quais me comprometo a cumprir as metas da Academia a serviço desta tão querida e amada terra da graça e da renda, berço de cultura, a “Atenas do Sertão” do Cardeal Arcoverde, a “Doce Pesqueira”, imortalizada na canção de Cláudio Almeida e Walter Ramalho.
                                           Pesqueira, 29 de maio de 2010.                              

quarta-feira, 11 de maio de 2011

SENHORA DE SI - Meu segundo livro - 2007


     No "Senhora de Si" , o real funde-se com o imaginário, as histórias são narradas da forma como o ficcionista gostaria que tivessem sido, sob sua ótica e experiências concretizadas na montagem do enredo.

a autora  
 
 Entramos no romance numa das manhãs claras da infância de Silvia, personagem principal da estória.. Toca o apito da fábrica, a mãe, já de pé, preparando o café. Na rua, os vendedores ambulantes e seus quitutes deliciosos. A amiga, que junto com ela, perfaz o caminho alegre rumo á escola, lugar encantado de suas remotas experiências. Um universo em harmonia nos é apresentado.
        Vem a adolescência, o imaginário em ebulição, os sonhos, o amor, as fantasias e também as frustrações. 
       A narrativa vai nos preparando para as grandes desilusões que estão por vir.
       Mas, e esse é o maior paradoxo, a personagem jamais se perde de si, como se, lá no fundo, fosse marcada pelo milagre da esperança, o que vai permitindo que ela encontre sempre novos começos, fazendo-a avançar corajosamente em busca de seu destino.          
      Comentário da apresentadora (Sônia Carneiro Leão -  Escritora e Pisicanalista)       
     



domingo, 8 de maio de 2011

O PRÊMIO DO ESCRITOR

    
Comecei a arrumar os livros na mesa de autógrafos. Um rapaz se aproximou procurando a escritora. Voltei-me. Sou eu.
 Era jovem, estava bem vestido. Os gestos simples com certa timidez que me chamou a atenção. Na certa não seria um dos convidados que iriam sentar naquelas mesas logo mais. Cumprimentou-me e falou: ouvi sua entrevista pelo rádio. Obrigada, você mora aqui na cidade?   Não Senhora, sou da Aldeia que fica por trás daquela serra. Desci para comprar o livro.
Autografei e agradeci ao índio que de imediato subiu a Serra do Ororubá com meu livro debaixo do braço. Ganhei a noite. Daquele momento em diante não importava o número de pessoas que iriam comparecer àquele tão esperado lançamento.
Um simples leitor, mesmo desconhecido, compensa todas as dificuldades que nos levam aos caminhos do escrever.
O escritor compartilha sentimentos e emoções com a humanidade, seja ele ficcionista ou não. A partir deste princípio a literatura é uma forma de incursão nas almas. Uma vez publicada, a obra não mais pertence a quem a escreveu, e somente àquele que a faz existir: o leitor.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A ILUSÃO FICCIONAL


O conjunto da natureza humana forma uma unidade que estabelece reconhecimentos e instiga a leitura de um texto escrito por um ficcionista, onde o painel, criado astuciosamente, é composto de emoções e sentimentos expressados com segurança e perícia em domar o tempo para quem adentra no magnífico e intrincado mundo imaginário da ficção.
Não é loucura como possa parecer para alguns, mas reflexo de vivência daquele que escreve; o imprevisível, a peripécia do dramático que leva ao trágico retratado em criações pela palavra como condições de vidas futuras escritas por um passado. Isso estabelece vínculos embevecendo o leitor.
Tudo que os personagens vivenciam traz o selo de uma realidade vivida ou experimentada. Cabe ao leitor acreditar que o que está escrito é mais real do que a realidade que nasce da alma de um ficcionista.
A Ficção nos leva à leveza da vida.

Meu livro "Crônicas de Uma Vida"

 Crônicas de Uma Vida, meu primeiro livro. Publicado em 2006, escrito a partir de histórias ouvidas na infância, salvo no HD da minha memória e fotografado com câmera mental de recordação. Doces e também amargas lembranças.
Pelos idos dos anos 1950, na fase dos cinco a oito anos de idade, quando a televisão ainda não havia invadido nossas casas e as crianças ouviam histórias, os adultos conversavam nas calçadas, após o jantar, sentados nas cadeiras de balanço  e respirava-se o ar puro das noites de verão. Eu ficava sentada no chão ouvindo as narrativas de minha mãe, uma mulher simples, possuidora de uma memória e imaginação capaz de causar inveja a muitos letrados. Ela contava os causos e histórias de forma expressiva, quase teatral, o que me proporcionava longos serões durante as férias escolares. Os fatos narrados na obra acima, tratam da saga de uma família de imigrantes nordestinos fugindo da seca, seguindo-se a história de vida da filha mais velha. São acontecimentos da vida real onde um homem é portador de uma doença bipolar sendo vítima de omissão por parte da família por conta da ignorância. São acontecimentos recheados de episódios inaceitáveis e poucos normais dentro do cotidiano. Uma narração histórica com enredo indeterminado.